Fauna

Vespas ocupam abrigos de formigas em árvores do Bornéu

Ocupação de cavidades em plantas jovens de Macaranga pearsonii foi mais provável em plantações de dendê do que em florestas exploradas.

Ilustração de vespas e formigas em cavidades de uma planta tropical
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (IA). Não é uma fotografia real do que a matéria descreve.

Uma espécie de vespa predadora está ocupando cavidades nos caules de plantas tropicais que normalmente servem de abrigo para colônias de formigas. O comportamento foi identificado em exemplares jovens de Macaranga pearsonii no Bornéu malaio, tanto em florestas exploradas quanto em plantações de dendê.

A ocupação pelas vespas foi muito mais provável nas plantações de dendê. Além disso, as plantas que continham vespas apresentaram colônias de formigas consistentemente menores. Essa associação, no entanto, não demonstra que as vespas tenham expulsado as formigas: segundo os pesquisadores, seriam necessários experimentos para testar essa possibilidade.

O estudo foi publicado na revista PeerJ e reúne pesquisadores da Queen Mary University of London, do Royal Botanic Gardens, Kew, e do Biology Center of the Czech Academy of Sciences. A notícia sobre o trabalho foi publicada pela ScienceDaily em 5 de outubro de 2026. A data em que as observações de campo foram realizadas não foi informada no material verificado.

Uma parceria entre plantas e formigas

Macaranga pearsonii faz parte de uma relação ecológica na qual a planta oferece abrigo e alimento às formigas, enquanto recebe proteção contra animais que consomem suas folhas. As plantas produzem câmaras ocas nos caules, onde as colônias podem viver, e também fornecem estruturas nutritivas usadas como alimento.

Em troca, as formigas defendem suas plantas hospedeiras contra insetos herbívoros, incluindo lagartas. A fonte descreve essa associação entre as chamadas plantas-formigueiro e seus habitantes como uma parceria com pelo menos 10 milhões de anos.

Esse tipo de interação é conhecido como mutualismo porque os organismos envolvidos recebem benefícios. No caso estudado, as formigas obtêm moradia e alimento, enquanto a planta conta com defensoras contra consumidores de folhas. A presença das vespas nas mesmas cavidades introduz um terceiro participante nessa relação.

As cavidades se transformaram em berçários de vespas

Os pesquisadores examinaram plantas jovens de Macaranga pearsonii em dois tipos de ambiente: florestas exploradas e plantações de dendê. Ao dissecar os caules, encontraram uma espécie de vespa predadora usando as câmaras ocas para criar sua prole. A espécie não foi identificada nominalmente no material disponível.

Dan Lestina, autor principal do estudo, relatou ter percebido que muitos caules haviam sido escavados de uma maneira incomum. Quando as estruturas foram abertas, a equipe encontrou moscas armazenadas no interior e consumidas por larvas de vespa.

De acordo com a descrição do estudo, as vespas adultas caçam e paralisam as moscas antes de guardá-las nas cavidades da planta. As presas servem de alimento para as larvas em desenvolvimento. Assim, estruturas associadas ao abrigo de formigas estavam sendo usadas como locais de reprodução abastecidos com alimento para as vespas jovens.

Ocupação foi mais provável em plantações de dendê

A comparação entre os ambientes revelou uma associação clara com a paisagem alterada. As plantas encontradas nas plantações de dendê tinham probabilidade muito maior de conter vespas do que aquelas examinadas em florestas exploradas.

O material não apresenta uma medida numérica dessa diferença, nem estabelece que a transformação do ambiente tenha causado diretamente a ocupação. O resultado mostra que a presença das vespas nas cavidades estava associada com mais frequência às plantações de dendê dentro das condições avaliadas.

Também permanece incerto se essa vespa é nativa ou introduzida. A distinção é importante para compreender como ela passou a explorar as estruturas de Macaranga pearsonii, mas não foi resolvida pelo trabalho descrito.

Plantas ocupadas tinham menos formigas

Outro padrão observado foi a redução no tamanho das colônias de formigas. Nas plantas cujas cavidades continham vespas, as colônias eram consistentemente menores.

Esse resultado levanta a hipótese de que as vespas possam deslocar as formigas ou interferir na ocupação dos caules. Ainda assim, a coexistência entre a presença de vespas e colônias menores não permite concluir qual processo produziu o padrão. As vespas podem afetar as formigas, mas também podem ocupar com maior facilidade plantas que já tinham colônias reduzidas, entre outras possibilidades não testadas no material.

Por isso, os pesquisadores ressaltam que experimentos seriam necessários para determinar se as vespas realmente expulsam as formigas. Até que esse mecanismo seja avaliado, o estudo sustenta uma associação, não uma relação comprovada de causa e efeito.

Possíveis consequências para a recuperação florestal

Espécies de Macaranga costumam estar entre as primeiras plantas a se estabelecer em áreas desmatadas ou danificadas. Por essa razão, alterações em sua relação com as formigas podem ter relevância para o processo de regeneração das florestas.

Uma possibilidade apresentada pelos pesquisadores é que a perda das formigas defensoras deixe as plantas menos saudáveis, o que poderia dificultar a recuperação florestal depois de perturbações. Essa consequência, porém, ainda não foi demonstrada. O estudo não testou se a ocupação pelas vespas reduz a saúde das plantas nem se produz efeitos mensuráveis na regeneração da floresta.

O trabalho indica, portanto, uma via possível de impacto: as vespas ocupam estruturas ligadas ao mutualismo; as plantas ocupadas têm colônias menores; e uma eventual redução da proteção poderia afetar as plantas. Cada etapa além dos padrões observados ainda exige testes específicos.

Uma hipótese sobre mudanças evolutivas

Os autores também discutem possíveis consequências evolutivas de longo prazo. Tom M. Fayle, autor sênior do estudo, afirmou que a perda dos benefícios de uma relação mutualística pode impulsionar mudanças evolutivas.

A hipótese é que, se as cavidades se tornarem menos vantajosas porque são exploradas pelas vespas, as plantas poderiam deixar de investir nessas estruturas ao longo do tempo. O estudo não demonstrou que isso esteja acontecendo em Macaranga pearsonii; trata-se de uma possibilidade decorrente da alteração do benefício fornecido pelas formigas.

Da mesma forma, não foi comprovado que outras parcerias ecológicas estejam sendo desestabilizadas. O caso estudado mostra que espécies adicionais podem explorar estruturas formadas em uma relação mutualística e que esse uso está associado, neste sistema, a paisagens perturbadas.

O que ainda precisa ser investigado

O trabalho deixa questões centrais em aberto. Experimentos precisarão verificar se as vespas reduzem ou eliminam diretamente as colônias de formigas. Também será necessário determinar se plantas com menos formigas sofrem mais danos e se isso interfere de fato em seu estabelecimento e na regeneração florestal.

A origem da vespa é outra pergunta sem resposta: o material não informa se ela pertence naturalmente à região ou se foi introduzida. Tampouco há confirmação de que a interação observada esteja produzindo mudanças evolutivas nas plantas.

O estudo, assinado por Dan Lestina, Mickal Houadria, Jasmine A. Gavin, Arthur Y.C. Chung, Kalsum Mohd Yusah, Michal Rindos, Klára Schlosserová, Heike Feldhaar e Tom M. Fayle, documenta um padrão ecológico específico: cavidades associadas ao mutualismo entre plantas e formigas também são usadas por uma vespa predadora, sobretudo nas plantas examinadas em plantações de dendê. Seus efeitos de longo prazo permanecem como hipóteses a serem testadas.

Fontes e referências

ScienceDaily ↗

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