Oceanos

Probióticos protegem corais de branqueamento no Mar Vermelho

Durante uma onda de calor em 2022, dois tratamentos com bactérias benéficas preservaram a coloração e a eficiência fotossintética de corais em um recife da Arábia Saudita.

Ilustração de corais recebendo tratamento probiótico no Mar Vermelho
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (IA). Não é uma fotografia real do que a matéria descreve.

Um experimento de campo realizado durante uma onda de calor no Mar Vermelho mostrou que tratamentos com bactérias benéficas podem reduzir o branqueamento de corais sob estresse térmico. Os testes ocorreram em 2022, em um recife situado a 15 quilômetros da costa da Arábia Saudita.

Os pesquisadores aplicaram dois tratamentos probióticos em corais da espécie apresentada de forma abreviada como A. valida. Nos grupos tratados, os animais mantiveram a coloração e a eficiência fotossintética, enquanto a saúde dos corais que não receberam o tratamento piorou.

Uma versão inativada pelo calor de um dos preparados bacterianos também protegeu os corais. Esse tipo de formulação, chamado de pós-biótico, pode ser uma alternativa mais barata e estável ao armazenamento do que os microrganismos vivos. Os resultados, porém, ainda não demonstram benefícios para o crescimento e a sobrevivência no longo prazo.

O que aconteceu durante a onda de calor

Durante o episódio de calor de 2022, a temperatura da água no laboratório subaquático usado pela equipe oscilou entre 30,9 °C e 32 °C. Esse intervalo ficou cerca de 1,2 °C acima da média local do verão e, quando sustentado, pode prejudicar os corais, segundo Raquel Peixoto, pesquisadora principal do estudo.

A equipe da King Abdullah University of Science and Technology (KAUST), na Arábia Saudita, agiu depois que a onda de calor já havia começado. Ao longo de 15 dias, a autora principal Erika Santoro e seus colegas mergulharam oito vezes até o recife e usaram seringas para administrar os preparados na água próxima aos corais.

Foram testadas duas misturas probióticas e suas versões pós-bióticas. As bactérias utilizadas nos preparados vivos haviam sido isoladas anteriormente de corais saudáveis da região. As misturas incluíam espécies pertencentes aos gêneros Cobetia, Halomonas, Sutcliffiella e Pseudoalteromonas.

Os microrganismos haviam sido obtidos de corais locais identificados como Pocillopora favosa, Stylophora pistillata, Galaxea fascicularis e espécies do gênero Acropora.

Como a proteção foi avaliada

Os pesquisadores acompanharam dois indicadores da saúde dos corais: a cor, utilizada como medida do branqueamento, e a eficiência da fotossíntese realizada pelas algas simbióticas presentes nos tecidos dos animais. Essas algas produzem nutrientes por meio da fotossíntese e participam de uma relação benéfica com os corais.

O branqueamento ocorre quando essa simbiose é rompida em resposta a condições de estresse, como o aumento da temperatura da água. O processo pode resultar na morte do coral, embora o branqueamento não corresponda, por si só, à morte imediata do organismo.

Mesmo com o tratamento iniciado depois do começo da onda de calor, os corais que receberam os dois probióticos mantiveram a coloração e a eficiência fotossintética. Uma das formulações pós-bióticas produziu resultado semelhante. No grupo de controle, que não recebeu os preparados, os indicadores de saúde pioraram.

Probióticos vivos e bactérias inativadas

Os probióticos usados no experimento são misturas de bactérias consideradas potencialmente benéficas para os corais. A estratégia procura alterar o conjunto de microrganismos associados aos animais, conhecido como microbioma, para ajudá-los a responder a situações de estresse.

Os pós-bióticos, por sua vez, são versões nas quais as bactérias foram mortas por calor. Embora não contenham microrganismos vivos, essas formulações podem desencadear respostas imunológicas ou outros mecanismos protetores no organismo tratado. Sua maior estabilidade e o possível custo menor podem facilitar o armazenamento em comparação com probióticos vivos.

A análise por sequenciamento genético indicou que o microbioma dos corais mudou depois das aplicações. Nos animais tratados com pós-bióticos, por exemplo, aumentou a presença de bactérias do gênero Cobetia, consideradas potencialmente relacionadas à resistência dos corais ao calor. Cada tratamento também provocou uma resposta metabólica diferente.

Esses resultados indicam que as formulações podem atuar por caminhos distintos. O estudo, no entanto, não estabelece que um único mecanismo seja responsável pela proteção observada.

Do aquário para um recife natural

Raquel Peixoto e outros pesquisadores já investigavam a manipulação do microbioma dos corais como uma possível resposta a ameaças ambientais. Trabalhos anteriores da equipe haviam mostrado, em tanques, que probióticos poderiam reduzir os efeitos do branqueamento e ajudar a manter os corais vivos.

O experimento de 2022 levou a abordagem para um recife no Mar Vermelho. Os testes foram realizados em um laboratório subaquático criado em uma área protegida dentro de um recife com diferentes espécies de corais. O local recebeu o nome de Coral Probiotic Village.

Antes do episódio de calor, experimentos nesse laboratório já haviam mostrado que probióticos podiam modificar o microbioma de corais saudáveis, aumentando algumas bactérias benéficas e reduzindo possíveis patógenos. Nessas observações, não foram detectadas mudanças na composição bacteriana da água e do sedimento ao redor. Faltava, porém, avaliar a estratégia em animais submetidos ao estresse de uma onda de calor.

Por que o resultado é relevante

Os corais fornecem habitat para cerca de um terço das espécies marinhas, segundo as informações reunidas pela fonte. O aumento da temperatura do mar está entre os fatores capazes de provocar o rompimento da relação entre os corais e suas algas simbióticas.

Estimativas citadas no material indicam que, se a temperatura média global subir 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, entre 70% e 90% dos corais poderão ficar sob risco de degradação severa no mundo até 2100. Nesse cenário, tratamentos que reduzam os efeitos imediatos do calor podem ajudar a preservar organismos durante episódios críticos.

Os autores não apresentam os probióticos como uma solução única. A própria pesquisadora principal ressalta que diferentes abordagens provavelmente serão necessárias em locais distintos para proteger os corais das ondas de calor.

Aplicação em grande escala ainda enfrenta obstáculos

O experimento tratou somente uma espécie de coral. Os pesquisadores consideram provável que outras espécies precisem de combinações próprias de microrganismos protetores, o que limita a possibilidade de aplicar uma mesma mistura de forma generalizada.

Também há dificuldades práticas. A administração de probióticos ou pós-bióticos diretamente nos recifes exige tempo e trabalho, enquanto os ambientes recifais podem ocupar áreas extensas. Desde o estudo de campo de 2022, a equipe trabalha no desenvolvimento de esferas feitas com alginato, um gel biodegradável, para manter os probióticos estáveis por mais tempo sob refrigeração e liberá-los lentamente nos recifes.

A duração da sobrevivência das bactérias nessas esferas ainda não está determinada. Portanto, o desenvolvimento dessa forma de aplicação permanece em avaliação.

O que ainda precisa ser investigado

Os indicadores de pigmentação e fotossíntese mostram que os tratamentos protegeram os corais durante o período acompanhado. Eles não permitem concluir, contudo, que os preparados aumentem a sobrevivência ou o crescimento ao longo de períodos maiores.

Estudos mais longos serão necessários para verificar se a manutenção da cor e da atividade fotossintética se traduz em benefícios duradouros. Também será preciso avaliar a viabilidade de produção, armazenamento e aplicação dos preparados em recifes mais amplos e com diferentes espécies.

O estudo científico foi descrito pela Mongabay como publicado em 3 de setembro na revista Cell Reports. O material disponível não informa explicitamente o ano dessa publicação, o título completo do artigo nem seu DOI. A reportagem da Mongabay foi publicada em 2 de outubro de 2026, enquanto o experimento de campo ocorreu em 2022.

Fontes e referências

Mongabay ↗

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