Uma análise que reuniu dados genômicos de todas as famílias viventes de morcegos e evidências do registro fóssil sugere que esses mamíferos provavelmente se originaram na Europa durante o Paleoceno tardio, entre aproximadamente 65 e 60 milhões de anos atrás.
A conclusão não estabelece o local de origem como uma certeza absoluta. Ela resulta de uma reconstrução da história evolutiva e biogeográfica do grupo, feita a partir da comparação de 103 genomas de morcegos com informações de 44 morcegos fósseis. O trabalho foi publicado na revista Nature em 2026.
Além de indicar uma origem europeia, os resultados sugerem que duas características marcantes dos morcegos — o voo motorizado e a ecolocalização — surgiram perto do começo da evolução do grupo, antes da diversificação das linhagens modernas.
Uma questão debatida há décadas
A região onde os primeiros morcegos teriam aparecido permanecia em discussão. África, Ásia e América do Norte já haviam sido propostas como possíveis áreas de origem. O novo estudo aponta a Europa como a hipótese mais provável com base na análise conjunta de genomas e fósseis.
Segundo a reconstrução apresentada pelos pesquisadores, os morcegos teriam surgido na Europa e seus descendentes posteriormente chegado à África. Conforme o grupo se diversificou, diferentes linhagens se expandiram para as Américas, a Ásia e a Austrália, contribuindo para a distribuição dos principais ramos encontrados atualmente.
Esses resultados devem ser entendidos como inferências obtidas a partir dos dados disponíveis. O estudo fortalece uma explicação para a origem geográfica do grupo, mas sua formulação permanece probabilística.
Genomas de todas as famílias reconhecidas
O estudo examinou 103 genomas, incluindo 42 novas montagens em nível cromossômico. A amostragem contemplou as 21 famílias reconhecidas de morcegos viventes, permitindo comparar representantes de toda a diversidade familiar atual.
O trabalho foi realizado por uma equipe internacional de 137 pesquisadores de 64 países, por meio do consórcio Bat1K. A iniciativa é dedicada ao sequenciamento dos genomas das espécies viventes de morcegos e tem Emma C. Teeling, da University College Dublin, entre seus cofundadores.
Também participaram do estudo pesquisadores como Liliana M. Dávalos, Michael Hiller, Sonja C. Vernes, David A. Ray, Graham M. Hughes e Zixia Huang. Entre as instituições citadas estão Stony Brook University, Senckenberg Research Institute, University of St Andrews e Texas Tech University.
O papel dos fósseis na reconstrução
Os dados genômicos foram analisados em conjunto com evidências de 44 morcegos fósseis. Essa combinação permitiu posicionar formas extintas na árvore evolutiva construída para o grupo e investigar quando e onde os primeiros ramos teriam surgido.
Um dos fósseis analisados foi o morcego Vielasia, posicionado no ramo mais antigo da árvore filogenética apresentada pelo estudo. A análise desse fóssil sustenta a interpretação de que a ecolocalização já estava presente perto do início da evolução dos morcegos.
O material consultado também menciona um fóssil de Palaeochiropteryx tupaiodon, encontrado no depósito de Messel, na Alemanha, e datado entre 47 e 48 milhões de anos. Esse exemplar é mais recente que o intervalo estimado pelo estudo para a origem do grupo, situado entre 65 e 60 milhões de anos atrás.
Voo e ecolocalização teriam surgido cedo
Os morcegos são os únicos mamíferos capazes de voo motorizado sustentado. A origem europeia indicada pela análise também leva os autores a apontar a Europa como o local mais provável para o surgimento dessa forma de voo entre os mamíferos.
A reconstrução evolutiva sugere que tanto o voo motorizado quanto a ecolocalização apareceram antes que os grupos modernos de morcegos começassem a se diversificar. Os autores consideram que essas capacidades podem ter contribuído para o sucesso evolutivo posterior do grupo, mas o estudo não apresenta essa relação como uma causa demonstrada de forma definitiva.
A ecolocalização permite que muitas espécies naveguem e cacem no escuro utilizando sons. Ao posicionar esse recurso próximo à base da árvore evolutiva, o estudo oferece uma referência temporal para investigar como uma das características mais conhecidas dos morcegos se desenvolveu.
Por que a árvore evolutiva era difícil de resolver
A reconstrução das relações entre as famílias era complicada porque diferentes partes dos genomas podiam preservar sinais conflitantes sobre a história evolutiva dos morcegos. Uma explicação considerada provável pelos pesquisadores é que linhagens antigas tenham trocado genes entre si.
Nesse cenário, uma região do genoma pode indicar um conjunto de relações, enquanto outra aponta para uma organização diferente. A equipe identificou, porém, uma parte do cromossomo X que conservava um sinal especialmente claro sobre as relações entre os grupos. Esse sinal ajudou a resolver árvores evolutivas que permaneciam em debate.
A árvore resultante fornece uma estrutura para estudar onde características específicas apareceram e como os fósseis se relacionam com as linhagens conhecidas por seus genomas.
Reconstrução do genoma ancestral
Os pesquisadores também reconstruíram computacionalmente o genoma do ancestral compartilhado por todos os morcegos viventes. Essa reconstrução cria um recurso para futuras análises das mudanças genéticas associadas à diversidade do grupo.
O conjunto de dados poderá ser empregado em investigações sobre a base genética do voo, da ecolocalização, da longevidade e da resistência a doenças. O estudo, contudo, não demonstra por si só quais mudanças genéticas causaram cada uma dessas características; ele oferece genomas, comparações e uma árvore evolutiva para orientar novas pesquisas.
Michael Hiller, do Senckenberg Research Institute, explicou que a equipe combinou sequenciamento de DNA e métodos computacionais para produzir, comparar e identificar os genes presentes nos genomas. David A. Ray, da Texas Tech University, destacou que o recurso permite examinar diferentes escalas de variação genômica entre as linhagens.
O que o estudo permite afirmar
As evidências reunidas sustentam três conclusões principais:
- os morcegos provavelmente se originaram na Europa entre cerca de 65 e 60 milhões de anos atrás, durante o Paleoceno tardio;
- os descendentes das primeiras linhagens se dispersaram posteriormente para outras regiões do planeta;
- o voo motorizado e a ecolocalização surgiram perto do início da evolução do grupo, antes da diversificação dos morcegos modernos.
A principal ressalva está na própria natureza da reconstrução histórica. Genomas atuais e fósseis preservam partes da trajetória evolutiva, e o local de origem indicado corresponde à explicação considerada mais provável pela análise, não à observação direta de um evento ocorrido dezenas de milhões de anos atrás.
Publicação e identificação do trabalho
O artigo científico, intitulado Reference genomes and fossils revise bat family phylogeny and biogeography, foi publicado na Nature em 2026, com o DOI 10.1038/s41586-026-11007-3. A notícia da ScienceDaily foi publicada em 30 de setembro de 2026; essa data corresponde à divulgação da matéria, e não ao momento da descoberta nem ao evento evolutivo estudado.


