Paleontologia

Fóssil da Mongólia reposiciona mamíferos do Cretáceo

Esqueleto de Tamirkhan balcarceli indica que os zhelestídeos pertenciam aos Zalambdalestoidea, e não à linhagem dos mamíferos placentários.

Ilustração de Tamirkhan balcarceli no deserto de Gobi
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (IA). Não é uma fotografia real do que a matéria descreve.

Durante quase quatro décadas, os zhelestídeos foram conhecidos principalmente por dentes isolados e restos incompletos. A anatomia dentária levou parte dos paleontólogos a considerar que esses pequenos mamíferos do Cretáceo poderiam estar próximos dos placentários, grupo ao qual pertencem humanos e a maioria das espécies atuais de mamíferos.

Um fóssil excepcionalmente completo encontrado no leste do deserto de Gobi, na Mongólia, forneceu um conjunto muito mais amplo de características para avaliar essa interpretação. O espécime pertence à espécie Tamirkhan balcarceli e preserva, além dos dentes associados aos zhelestídeos, incisivos de crescimento contínuo, características do crânio e membros posteriores compatíveis com os zalambdalestoides.

A conclusão apresentada pelos pesquisadores é que os zhelestídeos não eram mamíferos placentários nem parentes especialmente próximos desse grupo. Em vez disso, faziam parte dos Zalambdalestoidea, uma linhagem separada de pequenos mamíferos cretáceos.

O espécime foi encontrado em 2004 por Andres Giallombardo, durante uma expedição patrocinada pelo American Museum of Natural History. O estudo foi publicado em 2026 na revista Nature, enquanto a notícia do ScienceDaily que apresentou os resultados ao público foi publicada em 28 de setembro daquele ano.

Por que os dentes apontavam para outra interpretação

Os fósseis de zhelestídeos conhecidos anteriormente eram, em grande parte, dentes isolados ou materiais fragmentários. Seus dentes baixos e arredondados apresentavam uma especialização para alimentação vegetal diferente dos dentes mais afiados empregados na alimentação baseada em insetos por muitos mamíferos do Cretáceo.

Essa anatomia motivou diferentes hipóteses. Alguns paleontólogos propuseram que os zhelestídeos poderiam representar um grupo desconhecido de mamíferos com cascos. Também se discutia se eles seriam placentários que já viviam durante o Cretáceo ou integrantes de uma linhagem separada que havia desenvolvido, de forma independente, características semelhantes.

Estudos de relógio molecular baseados em animais atuais sustentaram a possibilidade de que os placentários tivessem surgido bem antes do fim do Cretáceo. O novo fóssil, porém, oferece evidência anatômica que aponta para uma posição diferente dos zhelestídeos na árvore evolutiva dos mamíferos.

Um esqueleto mais completo muda a comparação

Tamirkhan balcarceli é o espécime de zhelestídeo mais completo encontrado até agora, segundo o material divulgado sobre o estudo. Isso permitiu que os pesquisadores comparassem não apenas os dentes, mas também partes do crânio, incisivos, pernas e tornozelos.

O animal manteve o traço que historicamente definiu os zhelestídeos: os dentes baixos e arredondados. Ao mesmo tempo, apresentava incisivos longos e de crescimento contínuo, além de características cranianas vistas nos zalambdalestoides, descritos como pequenos mamíferos insetívoros semelhantes a musaranhos.

As pernas traseiras também forneceram uma pista importante. Elas eram longas e esguias, com tornozelos que, de acordo com o paleontólogo Shawn P. Zack, da University of Arizona, correspondem à anatomia dos zalambdalestoides. A combinação dessas características sustentou a inclusão dos zhelestídeos nesse grupo.

Semelhança com coelhos não significa parentesco próximo

O fóssil media entre seis e sete polegadas da cabeça à cauda. Seus membros posteriores alongados davam ao animal uma aparência comparável à de um coelho, razão pela qual zhelestídeos já foram chamados informalmente de coelhos do Cretáceo.

Essa comparação se limita à forma corporal. Tamirkhan balcarceli era apenas distantemente relacionado aos coelhos modernos. A aparência semelhante, portanto, não deve ser interpretada como indicação de parentesco próximo.

A anatomia dentária também pode representar um caso de evolução convergente. Os pesquisadores consideram provável que os dentes arredondados, semelhantes aos encontrados em diversos mamíferos herbívoros, tenham evoluído independentemente nos zhelestídeos. Na evolução convergente, linhagens sem parentesco próximo desenvolvem características parecidas associadas a modos de vida comparáveis.

Os limites de reconstruir um animal pelos dentes

Dentes estão entre os fósseis mais informativos disponíveis aos paleontólogos, mas o caso dos zhelestídeos mostra que eles não necessariamente revelam a anatomia do restante do animal. Uma interpretação baseada sobretudo na dentição pode mudar quando crânio, membros e outras partes do esqueleto entram na comparação.

Maureen A. O’Leary, paleontóloga da Stony Brook University e pesquisadora associada ao American Museum of Natural History, relacionou o resultado a uma antiga ideia atribuída ao naturalista francês Georges Cuvier: a de que um único dente permitiria prever a anatomia completa de um animal. Para O’Leary, o estudo demonstra que, embora os dentes permaneçam valiosos, eles nem sempre permitem antecipar a forma de todo o organismo.

O resultado também sugere que a diversidade anatômica dos mamíferos do Cretáceo pode ter sido menor do que aquela inferida exclusivamente a partir das diferenças entre os dentes. Essa é uma implicação do estudo, não a afirmação de que todos os mamíferos daquele período tinham anatomias semelhantes.

Como a posição evolutiva foi avaliada

Os pesquisadores usaram a plataforma MorphoBank para posicionar a nova espécie na árvore evolutiva dos mamíferos. A ferramenta reúne informações empregadas em estudos sobre relações evolutivas, incluindo dados de espécies fósseis.

Ao considerar conjuntamente dentes, incisivos, crânio, pernas e tornozelos, a análise indicou que as características compartilhadas com os zalambdalestoides explicam melhor a anatomia de Tamirkhan balcarceli do que a hipótese de proximidade especial com os placentários.

O trabalho tem autoria de Andres Giallombardo, Eva A. Hoffman, Maureen A. O’Leary, Paúl M. Velazco, Shawn P. Zack e Michael J. Novacek. A pesquisa envolve integrantes do American Museum of Natural History, Stony Brook University, University of Arizona e Arcadia University. Hoffman é identificada como vinculada à Yale University.

O papel do deserto de Gobi

O deserto de Gobi ocupa uma posição importante nesta investigação porque está entre os poucos lugares onde fósseis de zhelestídeos foram preservados. Sítios no Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão também forneceram registros do grupo.

Michael J. Novacek, curador da Divisão de Paleontologia do American Museum of Natural History, destacou que o Gobi permite a recuperação recorrente de mamíferos cretáceos excepcionalmente completos. Foi justamente esse nível de preservação que tornou possível comparar diferentes regiões do corpo de Tamirkhan balcarceli.

Para Giallombardo, que encontrou o espécime quando era estudante de pós-graduação, o caso também evidencia a importância do trabalho de campo para o estudo da história da vida. Embora o fóssil tenha sido coletado em 2004, sua descrição e análise publicadas em 2026 forneceram os elementos necessários para reavaliar uma questão discutida havia décadas.

O que o fóssil esclarece

O estudo não aproxima os zhelestídeos dos coelhos atuais nem demonstra que eles eram placentários. Sua principal contribuição é justamente separar essas ideias: a semelhança corporal com coelhos é morfológica, enquanto a dentição parecida com a de outros mamíferos de alimentação vegetal provavelmente surgiu de maneira convergente.

Com informações de partes do corpo que não estavam disponíveis nos achados fragmentários anteriores, Tamirkhan balcarceli sustenta a classificação dos zhelestídeos entre os Zalambdalestoidea. A revisão ajuda a reconstruir com maior precisão as relações entre pequenos mamíferos que viveram durante o Cretáceo e mostra por que fósseis mais completos podem alterar interpretações baseadas em apenas uma região do esqueleto.

Fontes e referências

ScienceDaily ↗

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