Descobertas

Coral da Costa Rica leva à criação de nova família

Análises anatômicas e genéticas indicaram que o octocoral <em>Laurinque elenya</em> pertence a uma linhagem evolutiva distinta, agora classificada na família Laurinqueidae.

Ilustração de octocoral amarelo ramificado em monte submarino

Um octocoral amarelo encontrado em montes submarinos próximos à Isla del Coco e ao longo da margem pacífica da Costa Rica levou pesquisadores a estabelecer uma nova família biológica. Batizada de Laurinqueidae, a família foi criada para abrigar Laurinque elenya, espécie que também recebeu um gênero próprio.

As colônias, ramificadas e semelhantes a árvores, foram encontradas entre 360 e 529 metros de profundidade. Algumas ultrapassam um metro de altura e se destacam sobre áreas rochosas cobertas por ofiúros, animais conhecidos em inglês como brittle stars.

A primeira observação do jardim de octocorais ocorreu em 2019. Espécimes foram coletados durante expedições realizadas em 2019 e 2023, enquanto o estudo científico e a matéria sobre os resultados foram publicados em 2026. Essa cronologia diferencia o momento da observação e das coletas da divulgação da classificação taxonômica.

Um octocoral que não se encaixava nas famílias conhecidas

A classificação de Laurinque elenya não se baseou apenas em sua aparência. A equipe comparou características físicas e dados genéticos para determinar a posição do organismo entre os octocorais conhecidos.

A análise indicou que a espécie representa uma linhagem evolutiva distinta. Ela é mais próxima da família Eunicellidae, mas as diferenças encontradas tanto na genética quanto na anatomia foram consideradas suficientes para justificar a criação da nova família Laurinqueidae.

Os pesquisadores também estabeleceram o novo gênero Laurinque especificamente para a espécie. Assim, o trabalho descreve três níveis relacionados de novidade taxonômica: a espécie Laurinque elenya, o gênero Laurinque e a família Laurinqueidae.

Três genes apontaram para direções diferentes

O caminho até essa classificação não foi direto. Inicialmente, os cientistas sequenciaram três genes comumente utilizados na identificação e na classificação de corais. Em vez de convergirem para o mesmo grupo, os resultados associaram o organismo a famílias diferentes e sem relação entre si.

Diante da inconsistência, a equipe recorreu à filogenômica. O método permitiu comparar centenas de genes simultaneamente, ampliando a base genética usada para reconstruir as relações evolutivas do octocoral.

Foi essa análise mais abrangente que esclareceu a posição de L. elenya. O resultado mostrou sua proximidade com Eunicellidae, mas também revelou uma separação genética compatível com as diferenças anatômicas observadas pelos pesquisadores.

O caso destaca a importância de combinar anatomia e filogenômica na identificação da biodiversidade marinha. A avaliação morfológica indicava que o organismo era muito diferente dos táxons conhecidos, enquanto a comparação de centenas de genes forneceu a resolução necessária para definir sua posição evolutiva.

Coletas foram feitas por veículo operado remotamente

Os espécimes foram coletados com o veículo operado remotamente SuBastian durante expedições a bordo dos navios de pesquisa Falkor e Falkor (too), operados pelo Schmidt Ocean Institute. As missões de 2019 e 2023 exploraram montes submarinos próximos à Isla del Coco e outros pontos da margem pacífica da Costa Rica.

O uso do veículo possibilitou a coleta em profundidades de centenas de metros. Foi nesse ambiente que os pesquisadores encontraram as colônias amarelas, especialmente abundantes em afloramentos rochosos onde os ofiúros ocupavam grande parte da superfície disponível.

Odalisca Breedy, pesquisadora líder do estudo e vinculada à Universidad de Costa Rica, relatou ter visto o jardim de octocorais pela primeira vez em 2019. A análise morfológica preliminar já sugeria que o organismo não correspondia às famílias e aos gêneros conhecidos considerados pela equipe. Novas amostras foram obtidas em 2023, permitindo aprofundar as análises moleculares.

O nome foi inspirado pela paisagem submarina

A aparência das colônias e o cenário ao redor inspiraram o nome científico. Laurinque deriva de Laurinquë, expressão que significa “árvore dourada” em Quenya, língua élfica criada por J.R.R. Tolkien. A escolha faz referência à cor amarela intensa e ao formato ramificado do octocoral.

O epíteto elenya significa “estelar” ou “das estrelas” na mesma língua. Nesse caso, a referência são as populações densas de ofiúros que cercavam as colônias. A combinação dos dois termos relaciona a denominação científica à imagem das estruturas amarelas semelhantes a árvores emergindo de um fundo coberto por animais com aparência estrelada.

Quem participou da pesquisa

O trabalho foi liderado por Odalisca Breedy e teve como autores Catherine S. McFadden, Catalina Murillo-Cruz, Ana-Belén Yánez-Suárez, Katleen Robert e Andrea M. Quattrini. O material de divulgação atribui as análises moleculares a Catherine “Cathy” McFadden, Catalina Murillo e Andrea Quattrini.

As expedições tiveram apoio do Schmidt Ocean Institute e de um auxílio de pesquisa da National Geographic Society. O artigo foi publicado em 2026 no periódico científico ZooKeys, da Pensoft Publishers, com o DOI 10.3897/zookeys.1283.191899.

Por que a nova família é relevante

A criação de uma família taxonômica indica que as diferenças encontradas não ficaram restritas ao reconhecimento de uma nova espécie. As evidências anatômicas e genéticas sustentaram a interpretação de que o organismo pertence a uma linhagem evolutiva distinta das famílias de octocorais anteriormente reconhecidas.

O ambiente onde L. elenya foi encontrado também chama atenção. Jardins de corais como esse são considerados ecossistemas marinhos vulneráveis. Suas estruturas tridimensionais fornecem habitat para outras formas de vida das profundezas e contribuem para a biodiversidade desses locais.

No caso estudado, a associação visual entre as grandes colônias amarelas e as superfícies ocupadas por ofiúros foi central tanto para a descrição do cenário quanto para a escolha do nome. A classificação, porém, foi definida pela convergência entre anatomia e uma análise genética ampla, e não apenas pela aparência incomum do organismo.

O que o estudo estabelece

Os resultados sustentam que Laurinque elenya pertence a um novo gênero e a uma nova família, com Eunicellidae como seu grupo mais próximo entre os considerados na análise. A conclusão se apoia nas características físicas do octocoral e na filogenômica baseada em centenas de genes.

O estudo documenta, portanto, uma linhagem evolutiva distinta em montes submarinos do Pacífico tropical oriental. Também mostra como resultados conflitantes obtidos com poucos genes podem exigir uma abordagem genômica mais abrangente para que a classificação de um organismo seja resolvida.

Fontes e referências

ScienceDaily ↗

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